"Viva eu, que inauguro no mundo o estado de
bagunça transcendente" (Murilo Mendes)
Em
A poética de Dostoievski, Mikhail
Bakhtine estabelece a carnavalização como um processo de retomada das
saturnálias gregas que se constituem nos pilares fundamentais da visão
carnavalesca do mundo, de base popular, oral.
O
carnaval (no sentido de um conjunto de diversas festividades, de ritos e de
formas do tipo carnavalesco), sua essência, suas raízes profundas no pensamento
humano e nas estruturas sociais primitivas, sua evolução na sociedade de
classes, sua excepcional vitalidade e seu prestígio permanente, colocam um
problema dos mais complexos e dos mais cativantes da história cultural. O
carnaval é uma forma de espetáculo sincrético, de caráter ritual, com variantes
e nuances diferentes, segundo as épocas, os povos, as festividades
particulares. Possui uma linguagem de símbolos concretos e sensíveis, presente
em uma certa transposição de imagens artísticas. A passagem do carnaval para a
literatura, para as artes plásticas, é que nós chamamos de carnavalização,
envolvendo atores e espectadores sem separação.
Nós não podemos evidentemente aborda-lo a fundo. O que nos interessa é a carnavalização, ou seja, a influência determinante do carnaval sobre a literatura e os diferentes gêneros, ou sobre a produção artística, como a nascida do que fica do carnaval. As leis, as interdições, as restrições que determinam a estrutura, o bom desenvolvimento da vida normal (não carnavalesca) são suspensas pelo tempo do carnaval; começa-se por re-inverter a ordem hierárquica e todas as formas de medo que ela contém: veneração, piedade, etiqueta. E pelo processo de profanação, fazem-se paródias, performances, fantasias em forma de figurino. É coroando o rei momo que se desentroniza o cotidiano da modernidade. O reinado de exceção predomina.
Flávio
Ferraz, por este viés de leitura artística, cria sua Alma Folgazã: uma mostra de um artista plástico que atua no espaço
do carnaval e que, por quadros, fotos, instalações, escolha de objetos, faz sua
carnavalização com o que ficou de folias em relicários, com texturas
construídas sobre plumas ambientalizadas.
A
batalha de confetes se perpetua, quando entronizada pelos ritmos das marchinhas,
frevos, sambas, resgatados nas composições de Flávio Ferraz, no CD Peruca Torta,: espaço do som, do
ludismo, do glamour, da alegria, da criação.
Marisa
Timponi Pereira Rodrigues
Profª.
de Literatura Brasileira