VERTIGEM

Na ousadia de extravasar o fluxo criativo, que como um vulcão, explode em minha mente, aceitei o convite de Ely Manoel para escrever essa coluna.

Inicialmente o convite foi feito ao Flávio Ferraz, do Espaço Unibanco Palace, para falar de cinema, programação e outros eventos da casa.

Nossa conversa foi se alongando e as vozes de outras manifestações artísticas que desenvolvo exigiram que essa coluna fosse mais abrangente. Que eu pudesse escrever sobre artes plásticas, música, teatro, computação gráfica e outras mídias de produção cultural, no jardim das delícias do fazer artístico sem rótulos, ou com todos eles.

Acertadas as minhas não coordenadas de vôo livre, aciono as turbinas do meu desejo e, surpreendentemente, me vejo, nesta decolagem como colaborador do Jfolha, dirigir meu olhar para o Cinema.

É que um fato muito louco aconteceu!

José Sette é um cineasta de Juiz de Fora, que tenho a honra de conhecer e de ter exibido no Palace, logo no início de funcionamento, uma mostra de seus filmes.

Foi uma semana animada em que fãs e amigos do diretor vieram assistir e rever o "Rei do Samba", "A Janela do Caos" e outros.

Na cafeteria do cinema voavam beijinhos para todo lado, abraços calorosos, sorrisos...

Vi como José Sette é querido por muitos.

Mas o que quero falar é sobre o tal fato muito louco.

Com o tempo fomos nos aproximando mais e entre um cafezinho e outro, nas suas aparições no hall do Palace, identifiquei uma sintonia no caminho artístico.

Aí, veio a seleção pela Funalfa do seu projeto de curta metragem "VERTIGEM".

José Sette ia filmar o momento da morte física do artista plástico Arlindo Daibert.

Tremi nas bases.

Queria saber tudo.

Afinal eu fora amigo do Arlindo em vida e mais ainda, um fã de carteirinha do show plástico de sua obra.

Arlindo Daibert do Amaral era um mestre no que fazia, um sábio e um mistério.

Um ser ambíguo. Sagrado e profano.

As profundezas de seu mergulho nas artes me fascinava e ao mesmo tempo me amendrontava.

Era surpreendente em vida e também o fora na morte.

Eu não estava em Juiz de Fora nesta época.

Contaram-me o fato bem depois de ocorrido.

Arlindo ia realizar uma palestra sobre o filme "Um Corpo que cai"("Vertigo") de Alfred Hitchcook.

Logo depois da projeção do filme foi convidado a se dirigir frente à platéia para discorrer seus comentários.

Assim o fez.

Mas antes de começar a falar, Arlindo Daibert caiu, dramaticamente, no chão.

Sim, me contaram, foi uma queda tão vertiginosa, que a platéia ficou muda, paralisada por instantes, convencida de ser uma performance. Afinal, nada mais integrada ao conceito do filme, que uma queda, um corpo que cai.

Mas não.

Não era uma forma artística de expressão do palestrante.

Não era uma performance do artista plástico.

Não era uma queda sequer.

Era um vôo.

O Arlindo foi neste instante para o além.

Deixou-nos a certeza de algo ainda a dizer e uma extensa obra para ser revista.

Das imagens que tão esmeradamente realizou, sempre que lembro dele, é a série "Auto retrato do Artista", a preferida da minha memória.

Motivada por um quadro de Johannes Vermeer (holandês do século XVI), do mesmo nome, "Auto retrato do artista" em que o pintor se coloca no lugar do espectador e se auto retrata de costas, em seu atelier, no ofício de pintar uma modelo, uma musa.

Arlindo apropriou-se do "boneco Vermeer" deste quadro e desenvolveu uma série de desenhos em que, este boneco sempre presente, já ícone do artista plástico, pintava possibilidades de musas inspiradoras de movimentos e correntes das artes.

A história da arte acontecia assim no ofício do boneco pintor com tacks de um filme sem fim do fluxo criativo.

Fascinante!

Anônimo, de costas, sem mostrar seu rosto, sua identidade, o artista, já o próprio Arlindo Daibert, se permitia a pintar tudo.

Soltar-se nas possibilidades sem as amarras de estilos, tendências, temas ou qualquer outros raciocínios interpretativos que os críticos e historiadores pensam e definem a criação.

"O artista existe na obra".

Com entusiasmo falei tudo isso e mais talvez, para o José Sette.

Seus olhos brilhavam!

Passados uns dias ele me disse:

-Flávio, inclui o Vermeer no roteiro do filme "Vertigem" e quem vai fazer o personagem é você.

Uma alegria muito grande invadiu meu peito e meus pensamentos deliraram.

Só mesmo do José Sette poderia vir a generosidade de tal convite.

Afinal, em Juiz de Fora, o rótulo mais gritante que possuo é a de exibidor de cinema. O cara do Palace. Assim me apresentam, assim me apontam...

Agora, vejam só!

O exibidor pula para a tela , vira personagem de filme, interpretando o Vermeer na obra do Arlindo Daibert.

Só mesmo o José Sette para tal genial sacada.

Aí me disse:

- O figurino você faz já que sei que pinta e borda, mas o seguinte, só faz a parte de cima da roupa, que o dinheiro da produção está curto e vou lhe filmar só da cintura pra cima.

- Ah não!- retruquei- se é pra fazer é pra fazer inteiro e com todo cuidado e esmero, que é assim que o Arlindo o faria e é assim que a gente gosta.

Convenci. Concordou.

Sem pensar muito no que estava ocorrendo, na euforia inocente de fazer uma fantasia, carnavalesco que sou, convoquei minha amiga e costureira Neuza e nos divertimos em executar o modelito.

Como Vermeer estava de costas, pesquisei outros quadros de pintores da mesma época para basear a solução da frente da roupa.

Liguei para o José Sette e comuniquei: o figurino está pronto. E o roteiro. Quando o recebo?

- Vou lhe mandar por email, ele me disse.

Ah! Tem o seguinte: a seqüência em que aparece o Vermeer é numa sala de cinema, depois da projeção do filme. Vou multiplicar, através de computação gráfica, a imagem do Vermeer, na platéia inteira.

É possível filmar no Palace, fora do horário das sessões?

- Não vejo problema. Vamos marcar a data, eu disse. E pensei: o negócio está ficando cada vez mais louco.

Agora, não só o exibidor de cinema vira personagem do filme como também ele é a platéia inteira da cena fatal.

Cruzes! Estou com medo!

Mas o Vermeer está de costas.

Eu, Flávio Ferraz, sou apenas um sub texto.

Vou encarar.

Chegou a grande noite.

Preparei minha malinha com o figurino e, caminhando na madrugada, para as filmagens no Palace, constatei vaidoso:

- Gente, é a minha estréia no cinema nacional como ator! Que barato!

Mas insaciável pensei:

Pôxa! Meu personagem não tem nenhuma fala.

Sou só um figurante.

Também de costas, com esta peruca e boina, ninguém vai saber que sou eu, Flávio Ferraz, o Vermeer, o artista ícone do Arlindo Daibert.

Prontinho da Silva, sentei-me na platéia, obediente ao diretor.

Foi quando, depois de SOM,

CLAQUETE,

AÇÃO,

Caí na real e

Meu Deus!

O José Sette está me filmando de frente.

Estou mostrando a cara, como a cara de Vermeer!

Que loucura!

O mistério acabou!

O artista sou eu.

VERTIGEM
Além de mim,
Além de Arlindo,
Além de Vermeer,
Além do artista:
A obra.
Além da obra,
O público,
O olho de quem vê.
Além do texto,
Quem lê.
Você.

Ferraz Flávio

Juiz de Fora, 10 de julho de 2002