"E os Skindins de Iaiá? Cumé, cumé que é?..."

Tive um amigo que era bailarino. Mas eu nunca o vira dançar em um teatro.

Ele era muito bonito. Seus gestos eram encantadores.

Às vezes, eu pensava que ele era bailarino, no ocupar seu lugar no espaço.

Enfim, ao meu amigo nada muito interessava ou tudo interessava muito, pois mudava de rumo por qualquer motivo.

Não tinha horário, nem dinheiro. Compromisso algum.

Flanava pela cidade como uma garça.

Um dia , para minha surpresa, pediu-me um bloco de pedra sabão e ferramentas.

Queria esculpir!...

Providenciei imediatamente, morrendo de alegria.

Afinal, era a primeira vez que meu amigo apresentava um projeto concreto, inteligível.

Quem sabe seria um grande escultor?!...

Deixei-o só no atelier, para não perturbar sua criação.

Voltei no cair da tarde, ansioso, curioso...

Encontrei-o, de banho tomado, feliz, comendo uvas e escutando música.

Perguntei pela escultura.

-Que escultura?!- espantou-se.

Corri ao atelier e sobre a bancada onde estava a pedra sabão não havia nada, só pó, muito pó.

-Foi maravilhoso! - ele disse - Adorei esculpir!

Tantas formas aconteceram e se transformavam com a minha coragem de tocar a pedra com a faca!

Novas e novas formas a cada corte...

- Você esculpiu a pedra toda e não restou nenhuma escultura?!

Você esculpiu até transformar tudo em pó? Que loucura, que maluquice! - contestei.

- Sim, foi incrível! Coisas lindas acontecem em esculpir.

Cada forma era a sugestão da seguinte...

- Tá legal, tá legal! Da próxima vez que você for esculpir, eu vou filmar.

...

Com o passar do tempo, lembro-me sempre desta história.

Percorrendo os infindáveis corredores do Louvre, invadiu-me uma sensação de despropósito ao ver tantas obras, tantas obras. Que loucura!

Sem pensar direito, mas lembrando-me do amigo bailarino, comecei a dançar.

Dancei freneticamente, deixando-me levar por uma música imaginária.

A multidão que se acotevelava para ver a Mona Lisa, virou-se para me ver rodopiar.

Fui aplaudido...

Mas ninguém filmou...

Hoje, contar este episódio do Louvre, ora é uma piada, ora um feito heróico, dependendo para quem eu conto.

Por aí a fora, não sei mais por onde anda aquele belo e leve amigo.

Nunca o vi na tela global, na manchete de jornal, no palco do teatro.

Fecho os olhos e imagino o desfile das esculturas surpreendentes que ele fez naquela tarde até tudo virar pó.

Para ele bastava o gesto, o momento, a vida.

Ele era a própria obra, resultante dos momentos e dos gestos de sua vida.

Enquanto dito bailarino, pouco lhe importava o programa, o currículo, o folder, o palco, o teatro.

O processo burocrático que lhe permitiria o espaço institucional da dança, o reconhecimento, a fama, ele ignorava.

Para ele a forma da sua expressão era circunstancial.

Bastava que desejasse para que tivesse motivo de ser.

Quero dançar, danço. Quero cantar, canto. Quero pintar, pinto.

Daí todas as possibilidades de expressão humana em um só homem sem rótulos.



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Minha amiga Cely Gonçalves é cantora de samba.

Desde que me entendo por gente, eu soube que Cely cantava samba.

Na minha terra todos sabem que Cely tem voz afinadíssima.

No período do Carnaval ela acontece...

Compositora de samba experiente, sabe fazer as viradas da bateria, os refrões animados e colocar na letra do samba-enredo os adjetivos corretos para ele ficar lindo.

E entre "auroras deslumbrantes e a luz prateada da lua" compôs e cantou muitos sambas. Animou muitos carnavais!...

Mas a invasão das músicas e rítmos, impostos pela mídia e a baianização do carnaval brasileiro quase calaram a voz da sambista.

Ainda restam as escolas de samba, que todo ano ameaçam não sair na avenida, por falta de verba do poder público.

Na última hora saem, cada vez mais improvisadas, mas (que sorte!), com um samba lindo da Cely.

Todo ano ela arrebata um ou mais troféus nos concursos de samba-enredo das escolas de samba da cidade e redondeza.

Skindum, dum dum

Skindum, dum dum

Skindum, Skindum.

...

Quarta-feira de cinzas sabe ser cruel para Cely.

O silêncio, exterminador da batucada, instala o reino da ressaca, do anonimato e do despropósito.

Resta guardar na estante os troféus conquistados.

Se eram muitos, com os anos outros tantos, são, hoje em dia, demais, exageradamente demais.

Na pequena casa em que ela mora um cômodo é só para os troféus.

Mantê-los limpos e brilhantes é um trabalho rotineiro e exaustivo.

Um dia encontrei Cely aborrecida, polindo os troféus.

Não aguentava mais tanto trabalho!...

Além de tudo, cada vez mais sem convites para cantar nos bares durante o ano, difícil manter a vida e além disso comprar os produtos para limpar os metais e os mármores dos seus troféus.

Num samba canção de dor e cansaço, Cely, foi assim, que resolveu doar todos, todos os seus troféus para o Centro Cultural da cidade.

Depois de várias reuniões na Câmara de vereadores, secretários e prefeito, a cidade, por bem, resolveu aceitar sua doação.

Em uma ampla sala do casario do Centro Cultural, organizaram as centenas de troféus, cronolõgicamente, com as letras dos sambas correspondentes.

Também expuseram fotos da cantora consagrada e até uma famigerada e surrada blusa de paetês dourados, que ano após ano, Cely usara nos carnavais.

Para inaugurar a "Sala Cely Gonçalves" organizaram uma festa, com presença de toda a sociedade, com muito vinho e canapés deliciosos.

No discurso entusiasmado, o Prefeito exaltou a afinação da voz da cantora e a sua vida dedicada ao samba.

O Secretário da Cultura , em nome da comunidade, entregou-lhe um troféu de "Honra ao Mérito", um dos maiores e com seu lugar em destaque, préviamente reservado, na coleção.

"Indubitàvelmente uma Glória Municipal."

Mas tudo passa e os tempos atuais estão negros, mais ainda para uma cantora de samba.

Desesperada, sem dinheiro algum, Cely Gonçalves foi ao prefeito lastimar a sua sorte.

- Que mais ele poderia fazer?

A "Sala Cely Gonçalves" é um sucesso no Centro Cultural!- disse-lhe o prefeito.

Mas a manutenção é muito cara. Os troféus iluminados um a um. Conta de luz altíssima!

Muita lâmpada queimada. O material de polir, uma fortuna! Mais os funcionários, vigia, faxineiro e monitor, salário 2.2, férias, 13º e vales. Uma loucura! Por ela a cidade já fazia demais.

- Mas estou sem comer, Sr. Prefeito, não tenho dinheiro algum - humilhava-se Cely , a "Glória Municipal"- Arranja um emprego na Prefeitura.

- Mas como vou lhe arranjar um emprego? Você não tem especificação nenhuma, não tem estudo... bem, o único jeito é ... faxina?!?!?!...

.......

Que fazer?!...

Hoje a Cely é contratada pela prefeitura como faxineira do Centro Cultural.

Passa os dias polindo os troféus que ganhara um dia.

Pelo menos, agora ganha por isso...





Flávio Ferraz Lima, Juiz de Fora, julho de 2001.