Do Lúcio Rodrigues, eu soube do escândalo.
Sua exposição de pinturas, na Reitoria, em março de 2002, considerada pornográfica, deu um qüiproquó danado, uma falação no metier e as opiniões divididas entre sim e não.
Eu nem vi, sei lá porque, mas ouvi falar por onde andei.
Sem ver, de toda forma, eu gostei do reboliço.
Sem ver, de toda forma, eu questionei se era de bom tom, pornografia na parede.
Como ouvinte de quem viu e comentava, eu também participei, relembrando outras épocas em que andei pintando partes sexuais e nus e paixões.
Como chocavam ao público, os quadros dessas exposições!
Achavam pornográficas, as minhas revelações de sensualidade e amor.
Passou.
Aí vem o Ely Manoel, editor do JFolha, querendo que eu conhecesse o atelier do seu amigo Lúcio.
Fomos, numa tarde de sábado.
Também nos acompanhou o Luís Antônio Pontes, que é fidalgo da Casa Monárquica de Portugal e de quem tenho o privilégio de ser amigo e parente.
Fomos indo, indo, pra lá de já está chegando, quase em Benfica, num galpão de fundos do Clube ABCR.
Entramos por uma cerca rompida ao lado de um portão trancado.
Atravessamos um salão vazio, com ares de abandono e cheiro de eucalipto. Uma sauna funciona à direita do corredor que nos conduz ao atelier ou esconderijo.
Sim, desde aí um ar de mistério e proibido nos conduzia e já excitante.
Ely, ciceroneava, comentando sobre a criação de dez cachorros vira-latas do Lúcio e que os quadros da exposição foram pintados em 23 dias. Um quadro por dia, dizia. Sai pra lá cachorro, deixa entrar, gritava o Ely, no portão à esquerda do corredor úmido pela sauna.
Sossegadas as ferinhas que mais alardeavam que de fato morderiam, entramos no atelier.
Melhor dizer que entramos dentro de um quadro.
É uma instalação o atelier do Lúcio. Não existe um centímetro qualquer de parede, de teto ou de chão que a sua mão não tenha passado alterando, pintando, inserindo.
Ele estava no fundo do galpão, trabalhando. Tatuava um rapaz gordinho e de peito peludo, ladeado por tres mulheres bonitas de olhares e sorrisos brilhantes.
Pelas paredes, superpondo pinturas e pichações, grandes painéis de surubas.
Lúcio não interrompeu seu trabalho, mas simpático, orientou o Ely para nos mostrar outros quadros que estavam empilhados.
Aí o cenário ficou completo. Ely espalhou aleatoriamente pelo chão, encostadas nas paredes e móveis, as telas repletas de corpos de homens e mulheres em orgasmos e penetrações explícitas.
Vale tudo. Sem preferência sexual definida.
Os desenhos ágeis, um misto de cubismo e história de quadrinhos, poderiam ter sido feitos por Ismael Nery, se ele tivesse tido coragem para tanto.
As cores ácidas, de uma iluminação psicodélica de uma boate, de abajur de motel, de luminoso de néon, tingiam freneticamente os corpos nus.
Eram tantos e por todo lado, que a intimidade exposta em cada quadro se interligava ao outro, transformando tudo numa grande orgia despudorada e o ar que respirávamos ativava no cérebro promessas de prazeres inconfessáveis.
Baco descia do Olimpo às gargalhadas, convocando suas bacantes para beber Audácia Pura, a cachaça que Jefão, o sátiro irmão do Lúcio, comercializa em garrafinhas, com rótulos contendo no verso colagens de revistas pornográficas.
Luis Antônio se entusiasmava em adquirir um grande painel de suruba, quando lembrou que atualmente reside com os pais e não teria na casa uma parede possível para receber a obra. Na sua gaveta de armário o quadro não caberia.
Não. Não foi a intenção do Lúcio segredar desejos.
Onde expor? Para quem vender? Eram questões que o Jefão, o carinhoso irmão, doubê de empresário, levantava.
Para mim, o instante era completo.
A instalação deveria ser vista pelo público na íntegra.
Que as pessoas pagassem para entrar no templo erotizante de Lúcio Rodrigues, o anjo tatuador.
Saíssem dali com a marca no corpo.
Ou com a cabeça impregnada de desejos.
E de souvenir, levassem a cachaça Audácia Pura.