Principalmente você deveria me entender e apoiar.
Você é a mulher mais próxima de mim.
Descortinou para mim, o universo feminino e a magia de ser mulher.
Antes de você, eu era um homem banal.
Sua chegada na minha vida, Marili, foi tudo.
Seus cabelos louros com reflexos prata, brilhantes ao sol, foram as velas defraudadas da caravela no meu descobrimento.
Eu não enganei você. Nunca, nunca, nunca...
Eu confundi amor, paixão, com deslumbramento.
Não resisti ao desejo insano de vê-la vestida de noiva, vindo sorridente em minha direção.
Foi o seu momento mais princesa.
Seu vestido de tafetá chamalote, com o peitoral todo bordado de miçangas e rebordado com vitrilhos, sinceramente Marili,
deveria constar da coleção do Museu da Moda de Paris.
E os sapatos?
Meu Deus, o que era aquilo!...
Cinderela alguma sonhou em ter algo igual!
Na igreja, toda decorada com helicônias, vê-la transpassar o umbral da porta, com seu buquê de orquídeas raras, foi a abertura da minha primavera.
Eu, que vivia no outono desfolhado, sem graça, da minha vida de homem comum, não resisti ao perfume Chanel5 da sua presença.
Não conseguiria mais ficar, sem ouvir cantarolar sua voz meio-soprano com sotaque do sul.
Passei a saborear as nuances da sua fala, seu português corretissimo de Curitiba.
Você nem pode imaginar o prazer que eu sentia, quando você dava chilique por ter quebrado uma unha. Chilique quando puxava o fio da meia fina.
Ou quando o cabeleireiro errava o tempo de tingimento e o seu cabelo ficava um tom ligeiramente mais escuro do que o louro-ouro que você gostava.
Eu passei, dia a dia, a lhe compreender mais e mais!
Fui desvendando, aos poucos, seus segredinhos preciosos.
O uso exuberante de listas verticais que lhe alonga a silhueta!
Os saltos 7,5 mesmo no dia a dia, dentro de casa!
As sobrancelhas arqueadas, desenhadas a lápis por cima das originais pinçadas!
Os decotes generosos dos seus vestidos, mostrando mais costas que o usual.
Tudo isto e mais alguma coisa, que não ouso citar, fizeram de você a grande mulher que é.
Sem duvida alguma! Sem margem de questionamento.
Não Marili, quando lhe disse que você é a mulher da minha vida eu não menti.
Você é a musa inspiradora da minha arte.
No altar-mor da minha catedral você é a santa padroeira.
Merecedora de todo o meu respeito e veneração.
Jamais imaginaria sua traição.
Turvou a áurea do seu ser com um descabido desejo carnal que vulgarizava sua imagem.
Depois que você me abandonou, desencantada com a nossa união, desencantada com a minha idolatria,
eu fiquei sem respirar, pois você era a minha atmosfera.
Que culpa tenho eu se você deixou o guarda-roupa repleto dos seus adoráveis modelitos!
No principio eu pegava e acariciava os vestidos, perdido no mar da saudade infinita.
Beijava as suas luvas de pelica e cheirava profundamente os lenços de seda que usava nos cabelos,
quando não queria atrapalhar o penteado ao vento.
Mas depois não resisti ao desvario de vestir as suas roupas.
Como nosso manequim é diferente, mandei fazer réplicas dos modelos mais fenomenais.
Aqueles vestidos de grifes famosas, que definiam o seu estilo “bonequinha de luxo”.
Como uma serpente que muda a pele, senti a maquiagem me transformando.
No reflexo do espelho eu me perdia, para lhe encontrar.
Comprei uma peruca loura e a tingi no tom exato que você tanto exigia.
Treinava horas a maneira combinada de olhar e falar e balançar os cabelos.
Adquiri o tom do seu sotaque. A elegância da sua voz projetada.
Minha transformação tinha um único sentido: reencontrar você.
Minha obsessão e minha arte.
Tomei hormônios e depilei meu corpo com cera quente.
Por fim, para completar a minha obra, descobri um endereço discreto, onde apliquei ampolas de silicone pelo corpo,
arredondando as formas das pernas, da bunda, dos preciosos seios e das maçãs do rosto.
Era você quem me olhava do espelho, só que maior, bem maior, monumental.
Resolvi me exibir pelas avenidas e praças como uma estatua viva.
Depois cantando as suas cantigas preferidas pelos corredores do Metrô.
Não tenho culpa se um caça-talentos me tenha descoberto.
Subi aos palcos para realizar os seus sonhos de cantora.
Não tenho culpa do meu sucesso ter sido arrebatador.
De ter invadido as capas de revistas com o meu sorriso.
Para mim, era restaurar ao mundo, a sua alegria.
Por que se irritar quando as pessoas a confundem comigo nas ruas e a assediam, pedindo autógrafos?
É a nossa gloria dividida.
Por que este processo ridículo de danos morais, por eu me chamar também Marili?
Que outro nome eu usaria?
Eu sou Marili Star.
Você é Marili.
A musa, a inspiração, a essência.
Você é o meu caminho e o meu encontro.
Minha realização é ser você em mim, sublime!
Não macule Marili!
Não macule, não macule!
Não interrompa a trajetória brilhante do cometa, a estrela delirante, a lua ofuscante que reflete a sua imagem.
Não seja suicida!
Não atrapalhe o meu trabalho.
SJN, 2005-11-09.